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Homilia: Ceia do Senhor

Homilia: Ceia do Senhor

“Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo.” (Jo 13,12)

O Senhor nos amou até o fim aqui mesmo neste mundo, ama-nos também em nossas quedas e jamais nos abandona, Ele jamais nos deixaria entregues a nós mesmos. Jesus ama até o fim, nos ama até à altura da cruz, caminha conosco pelas estradas do mundo e vai à nossa frente como um Esposo cheio de Misericórdia. Mas não vai somente à nossa frente como um condutor que se limita a descortinar os caminhos da vida. Não! Jesus é um Esposo que nos conduz sempre tomando a nossa mão para que não percamos o rumo do céu, o caminho que perpassa pelo deserto, o caminho entre a terra e o céu!

A Santa Missa da Ceia do Senhor nos recorda a extremidade do amor de Jesus pela humanidade, abeira-nos do banquete do Corpo e do Sangue Dele, vertidos misericordiosamente nas incontáveis dores deste mundo. O Senhor não se conteve, desceu de Sua glória divina, tirou o Seu manto e tomou para Si a toalha do serviço, ensinando-nos a fazer o mesmo. Aqui podemos contemplar a Sagrada humildade que se revela no serviço de Jesus ao juntar dois altares: o altar do sacrifício e o altar das dores do mundo. Não existe distinção entre esses dois altares, o Senhor os juntou e fez-Se alimento para nós e para tantos que nos precederam nesta vida: os nossos ancestrais, a fileira dos incontáveis santos da Igreja, os mártires, os homens e as mulheres que serviram a humanidade com este mesmo amor de Jesus, o amor humilde que desce até a extrema baixeza dos porões escuros da história; aqui cabe a menção de alguns destes homens e mulheres santos: Santa Madre Teresa de Calcutá, os protomártires do Brasil (Cunhaú e Uruaçu), da nossa vizinha terra do Rio Grande do Norte, São Camilo de Lellis, benfeitor da caridade nos hospitais, e Ir Dulce dos Pobres, que muito amou os pobres do Estado brasileiro da Bahia.

‘A Quinta-feira Santa não é apenas o dia da instituição da Santíssima Eucaristia, cujo esplendor se estende sem dúvida sobre tudo mais, tudo atraindo, por assim dizer, para dentro dela. Faz parte da Quinta-feira Santa também a noite escura do Monte das Oliveiras, nela Se embrenhando Jesus com os seus discípulos; faz parte dela a solidão e o abandono vivido por Jesus que, rezando, vai ao encontro da escuridão da morte; faz parte dela a traição de Judas e a prisão de Jesus, bem como a negação de Pedro; e ainda a acusação diante do Sinédrio e a entrega aos pagãos a Pilatos. Nesta hora, procuremos compreender mais profundamente alguma coisa destes acontecimentos, porque neles se realiza o mistério da nossa Redenção.’ (Bento XVI; homilia Missa in Cena Domini, 2012)

Que noite o Redentor atravessou? E o que essa noite tem a ver conosco? Na tradição bíblica, a noite significa o obscurecimento da verdade; nela, o mal pode avançar e desenvolver-se. Mas não devemos temê-la, pois a Grande Luz, Jesus, entra na noite e a supera, inaugurando o novo dia de Deus em favor dos homens. Diante dos tumultos da vida humana nos falta a coragem para atravessar a noite, nos falta a fé de que o Redentor caminha conosco, como um Esposo cheio de Luz a iluminar os caminhos do mundo, que beira o declínio porque virou as costas a Deus. Como cristãos para esta época, não podemos temer a travessia da noite do mundo, não podemos nos exilar com a desculpa de que o mundo é perverso e de que nada de bom podemos encontrar nele. O Senhor nos pede o empenho de vestir o avental do serviço, de nos colocar à serviço dos mais pobres e dos mais abandonados. Nossos temores serão vencidos mediante o empenho autêntico da Caridade de Cristo: ‘Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido.’ (Jo 13,5)

O maior serviço que devemos dar ao mundo passa pelo anúncio da Verdade de Cristo. O mundo padece porque se alimenta da grande mentira de que Deus não conta para o progresso humano. Neste solene dia também rezamos e fazemos memória do Sacerdócio Ministerial, o homem que se consagra a Deus e que colabora com Sua Verdade no mundo. O sacerdócio não será um resto ultrapassado de tempos idos que o mundo não mais necessita, enquanto devem ser empenhadas todas as forças para afugentar a miséria e aumentar o progresso social? Quem é capaz de falar com um doente no entardecer de sua vida, dando-lhe esperança e sentido, quando as luzes desta vida se apagam? O Sacerdote é o homem que coloca-se à serviço do anúncio da Palavra, mesmo quando o serviço desta Palavra se torna difícil, fazendo-a conhecida num mundo que está saciado de toda espécie de sensação. Ao lado do serviço da Palavra está o serviço dos sacramentos que compreendem todo o percurso da vida humana. ‘Por meio do sacramento o sacerdote se torna o companheiro de todo o caminho da vida, das grandes decisões humanas básicas, que finalmente só podem ser tomadas de maneira acertada, se Deus nos dá a sua mão.’ (Bento XVI)

O Sacerdote é também o homem que se consagrou a Deus para o serviço do altar. O Sacramento da Eucaristia é a festa que vem do sacrifício, é Deus celebrando conosco, e esta celebração é muito mais do que todo o lazer que se torna vazio, quando não há mais a festa que nós mesmos não podemos fazer. Devemos aproximar-nos da Eucaristia com a convicção interior de que Nela fazemos comunhão com o Senhor. O Mistério Eucarístico é o dom que Jesus Cristo faz de Si mesmo, escancarando-nos o bondoso amor infinito de Deus por todo o homem. Na intimidade da Última Ceia, os Apóstolos receberam do Senhor o dom da Eucaristia, dom posteriormente destinado à todos, ao mundo inteiro. Na nossa travessia terrena, somos envolvidos pela sombra da Cruz de Cristo, não se trata de uma sombra que nos deixa num estado de quietude indiferente ou de apaziguamento. A alta sombra, vinda do Corpo do Crucificado, Daquele que deu sua Vida livremente, nos cobre em Misericórdia exodal, nos leva à missão. Do Corpo Dele, também, brota para nós o alimento que funde a força em nossa carne, alimentando-nos e impulsionando-nos na peregrinação deste mundo. A Eucaristia é dom que nos alimenta e nos torna fortes para a missão!

Que a Virgem Maria, a Mãe do Belo Amor da Cruz, nos acompanhe com sua maternal oração; que neste ano Mariano tenhamos o nosso amor a Deus e aos irmãos renovado e parecido com o amor Dela, um amor que sempre se une e se compromete na evangelização do mundo!

Pe. Marcelo Monte de Sousa

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