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Homilia: Sagrada Família

Homilia: Sagrada Família

Estamos aqui para participar nesta liturgia da última hora do ano do Senhor de 2017. Esta «hora» traz consigo uma intensidade particular e torna-se, de certa maneira, uma síntese de todas as horas do ano que está prestes a findar. Daqui a pouco iremos entoar O Te Deum que ao Senhor, trata-se de um hino de ação de graças que inicia com o louvor — «Nós vos louvamos, ó Deus, nós vos proclamamos Senhor» — e o mesmo termina com uma belíssima profissão de fé — «Vós sois a nossa esperança, não seremos eternamente confusos». Qualquer que tenha sido o andamento do ano, fácil ou desafiante, improdutivo ou abastado de frutos, nós escolhemos dar graças a Deus, escolhemos dizer que apesar de tudo, Deus nos acompanha, Deus tem sido bom em todos os momentos. Com efeito, no Te Deum está contida uma sabedoria profunda, aquela sabedoria que nos leva a dizer que, apesar de tudo, existe o bem no mundo, e este bem está destinado a vencer graças a Deus, o Deus de Jesus Cristo encarnado, morto e ressuscitado. É claro que às vezes é difícil compreender esta realidade densa, uma vez que o mal faz mais barulho do que o jeito de ser do bem; “um homicídio atroz, violências difundidas e graves injustiças fazem notícia; ao contrário, os gestos de amor e de serviço, o cansaço quotidiano suportado com fidelidade e paciência permanecem muitas vezes na sombra, não sobressaem. Também por este motivo, não podemos deter-nos apenas nas notícias, se quisermos compreender o mundo e a vida; devemos ser capazes de parar no silêncio, na meditação, na reflexão calma e prolongada; devemos saber parar para pensar. Deste modo, a nossa alma pode encontrar a cura para as inevitáveis feridas da vida diária, pode penetrar profundamente nos acontecimentos que se verificam na nossa vida e no mundo, e chegar àquela sabedoria que permite avaliar as coisas com um novo olhar. Sobretudo no recolhimento da consciência, onde Deus nos fala, aprendemos a considerar verdadeiramente as nossas próprias ações e também o mal presente em nós e ao nosso redor, para empreender um caminho de conversão que nos torne mais sábios e melhores, mais capazes de gerar solidariedade e comunhão, de vencer o mal com o bem. O cristão é um homem de esperança, também e sobretudo diante da escuridão, que muitas vezes existe no mundo e que não depende do desígnio de Deus, mas das escolhas erradas do homem, porque sabe que a força da fé pode mover as montanhas (cf. Mt 17, 20): o Senhor pode iluminar até as trevas mais densas.” (Bento XVI, TE DEUM DE 2012)

Neste domingo, que segue o Natal do Senhor, celebramos estupefatos a Santa Família de Nazaré. O contexto é o mais correspondente, porque o Natal é por excelência a festa da família. Hoje, ao celebrarmos a FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA, queremos, juntamente com nossas famílias, reconhecer o lugar central de Deus em nossa vida e em nosso empenho apostólico. “Jesus quis nascer e crescer numa família humana; teve a Virgem Maria como mãe e José que lhe fez de pai; eles cresceram-no e educaram-no com imenso amor. A família de Jesus merece deveras o título de ‘santa’, porque está totalmente absorvida pelo desejo de cumprir a vontade de Deus, encarnada na adorável presença de Jesus. Por um lado, é uma família como todas e, como tal, é modelo de amor conjugal, de colaboração, de sacrifício, de entrega à divina Providência, de laboriosidade e de solidariedade, em suma, de todos aqueles valores que a família guarda e promove, contribuindo de modo primordial para formar o tecido de cada sociedade. Mas, ao mesmo tempo, a Família de Nazaré é única, diversa de todas, pela sua singular vocação ligada à missão do Filho de Deus.” (Angelus, 28 de dezembro de 2008, Papa Bento XVI)

Para que lugar Maria e José levaram o recém-nascido, o Menino que também é Deus? É a própria Palavra de Deus que nos responde: “Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22). A Virgem Maria ofereceu o sacrifício dos pobres (cf. Lc 2,24). O evangelista s. Lucas, cujo Evangelho inteiro está recheado por uma teologia dos pobres e da pobreza, aqui nos faz compreender que a família de Jesus se considerava entre os pobres da casa de Israel; leva-nos a também compreender que justamente entre eles podia amadurecer o cumprimento da promessa. Maria não necessitava ser purificada depois do parto, pois esse nascimento traz a purificação do mundo, limpa as consciências de todos os homens. Mas ela obedece à Lei, ela em tudo obedece à Deus. A Apresentação de Jesus no Templo já desenha o sentido e o alcance de Seu Sacrifício Redentor na cruz.

O coração da liturgia de hoje nos coloca diante da Primazia de Deus para nossas famílias. Deus, a quem nossas vidas pertencem, deve ser o lugar de nossa existência; Dele, nossas famílias devem partir e para Ele voltar. A beleza da vocação cristã das famílias perpassa pelo exercício das virtudes guardadas na vida silenciosa da Família de Nazaré, Jesus, Maria e José. Por que nos custa muito imitar a Sagrada Família? Devemos nos revestir de sincera misericórdia, de bondade, de mansidão e de paciência, como nos pede a segunda leitura, da Carta de São Paulo aos Colossenses. E a carta ainda nos pede mais, pede que suportemos uns aos outros e efetivemos o perdão entre si, sem buscar ter queixa contra o outro. Imitar a Sagrada Família só é possível mediante o esforço do amor; é verdade que custa-nos bastante perdoar, mas não podemos alimentar o rancor e o ressentimento, pois Deus em sua infinita bondade, nos deu Seu Filho numa cruz, o mesmo que repousou sobre uma manjedoura em Belém, e que estamos festejando nestes dias. E esse “doar-Se” de Deus na carne de Seu Filho na cruz, por amor a nós, é puro gesto e ato de perdão. Deus já nos perdoou na cruz de Seu Filho, e porque não queremos perdoar quem amamos ou até mesmo os nossos inimigos?

Na simplicidade da casa de Nazaré podemos aprender a educação da fé e do espírito de sacrifício, tão incomuns em nossos dias. Sabemos que é necessário educar-se para crer, em primeiro lugar no convívio familiar, no amor verdadeiro. E de onde vem esse amor? Vem de Deus, e quando vivemos o espírito de sacrifício, de morrer para o outro viver, nos unimos a Deus e, por isso mesmo, Ele nos transforma em um Nós, que supera qualquer divisão e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja “tudo em todos” (Cf. 1Cor 15,28). O amor é a única força que pode transformar o mundo! Não podemos celebrar a Eucaristia com nossa família e ter em conta no coração a falta de perdão e o rancor. O amor de Cristo, que é exigente, nos pede conversão. Hoje podemos dobrar nossas justificativas e “verdades” para não perdoar ante à necessidade de cultivar o diálogo familiar, o querer bem ao outro e a permanência na vida do nossos. Que a materna proteção de Nossa Senhora, a Mãe de Deus, nos acompanhe. Ela que nos oferece o Menino que jaz na manjedoura como nossa esperança acertada. E que o glorioso São José, guardião das virtudes e da Verdade de Cristo, favoreça os pais aqui presentes na educação firme e virtuosa de seus filhos, levando-os ao céu. Assim seja! Amém!

ANO B – PARÓQUIA DE APARECIDA
Pe. Marcelo Monte de Sousa
Arquidiocese da Paraíba

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